domingo, 8 de maio de 2016

Trabalho, meritocracia e empreendedorismo



Breve ensaio sobre palavras usadas em discurso e seu significado político e ideológico

Nessas andanças pelas redes sociais, encontrei um texto da Professora Raquel Foresti, que escreve o excelente blog Professora Invertida, falando sobre o discurso da meritocracia e empreendedorismo e suas implicações na educação. Assim como tal corpo ideológico tem implicações na educação, também tem na economia. E essas implicações já foram observadas em outros períodos históricos.

Nos anos 90, o Brasil se viu em uma crise econômica com consequências sociais severas. Em razão de medidas macroeconômicas adotadas, as empresas estabelecidas no território nacional diminuíram seus investimentos ou simplesmente encerraram suas atividades, principalmente em razão do crédito caro e da valorização cambial. A implicação social imediata disso foi a elevação intensa das taxas de desemprego no país.

Foi nessa época também que a palavra “empregabilidade” entrou no jargão de cientistas sociais e analistas econômicos com a função de explicar a grande quantidade de desempregados. O núcleo da argumentação era de que a economia brasileira estava se ajustando a um novo modelo, mais aberto e globalizado, e que os trabalhadores deveriam buscar novas habilidades e competências para se tornarem atraentes para as empresas e garantir seu emprego. Essa é a ideia de empregabilidade: o indivíduo torna-se praticamente o único responsável por estar empregado ou desempregado, devendo adaptar-se ao cenário macroeconômico vigente.

Frente a este cenário, o governo brasileiro reagiu com o foco voltado para as características individuais do trabalhador. A ideia era fornecer as características necessárias para que estes conseguissem elevar seu grau de empregabilidade. Foram gastos alguns milhões de reais e o impacto sobre o emprego foi praticamente nulo, uma vez que as condições macroeconômicas tinham se mantido constantes.

Em tempos recentes, e com um novo movimento de alta nas taxas de desemprego, quase não se ouve falar de empregabilidade. No entanto, como foi mostrado no texto da Professora Raquel Foresti, surgem, com força, nos discursos de cientistas sociais de determinadas linhas de pensamento as palavras “meritocracia” e “empreendedorismo”. Novamente, as duas palavras remetem à características individuais dos trabalhadores e são tratadas na literatura especializada como se fossem as variáveis mais importantes para a geração de trabalho e renda para indivíduos e famílias.
 
Sem dúvida, há uma série de características individuais que afetam a capacidade de uma pessoa encontrar emprego. O seu grau de escolaridade, a experiência anterior, os conhecimentos culturais, a atitude propositiva frente a obstáculos são alguns exemplos de características individuais que influenciam na escolha do trabalhador por parte da empresa. Mas há um pressuposto nessa relação que as teorias neoliberais parecem esquecer: a vaga de emprego tem que existir para que a relação possa se concretizar.

Alguns dizem que, caso não se encontre emprego no mercado, a pessoa pode criar seu próprio emprego por meio de suas atitudes empreendedoras. No entanto, um raciocínio análogo ao caso do emprego persiste. Para que um negócio tenha sucesso, não basta a atitude empreendedora de seu proprietário. Há que se ter condições macroeconômicas favoráveis para que seja gerada demanda para os bens e serviços ofertados pela empresa. Caso contrário, a empresa torna-se inviável.

A alegação tipicamente neoliberal de que não há ideologia envolvida nessa visão de mundo é exatamente o núcleo da ideologia neoliberal. É um recurso retórico. Transmite-se a ideia de que esse paradigma é algo natural, sem direcionamento político. No entanto, ao responsabilizar quase que exclusivamente os próprios trabalhadores e pequenos empresários pelo seu desempenho no mercado de trabalho, retira a responsabilidade do Estado na condução da política macroeconômica e nas políticas sociais. Eis que aparece mais claramente o paradigma do Estado Mínimo.

Não existe ideia que não se fundamente em uma base filosófica, política e ideológica. Ao clamar que suas ideias não têm influência ideológica ou política, o orador já está admitindo tacitamente a sua ideologia.

Um comentário:

  1. Fico feliz que o post do Professora Invertida tenha inspirado sua reflexão, Ricardo. Em tempos de respostas rasas e rápidas, precisamos levantar questões incômodas como esta. Abraços.

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