Trabalhadores em Faisalabad, Paquistão. Foto: R.Cifuentes
Um breve ensaio a respeito da influência do trabalho em outras áreas de nossas vidas.

Momentos de ócio são extremamente produtivos. Não necessariamente produtivos no sentido utilitarista da palavra que remete ao ócio à possibilidade de gerar ideias que possam ser aplicadas na produção empresarial. São produtivos para impulsionar o pensamento sobre a própria existência e sobre os nossos atos.

Na última quarta, durante um café da manhã, surgiu a ideia de que nas sociedades ocidentais, as pessoas se identificam pelo trabalho. Se você perguntar a uma pessoa aleatória o que ela é, provavelmente ela responderá qual é a ocupação que ela exerce. "O que você é, senhora" e ela responde "sou professora", "sou médica", "sou doméstica". É tão natural responder sobre a profissão que nem notamos como estamos envolvidos pelo trabalho. Isso pode ser bom, ou pode ser a ruína de algumas pessoas.

Essa percepção foi despertada quando passei alguns dias no Paquistão. Fiquei na cidade de Faisalabad, onde visitei uma fábrica de móveis - foi onde captei a fotografia que ilustra esta publicação. Quando perguntei a um dos trabalhadores o que ele costumava fazer, ele respondeu que costumava caminhar na margem de um rio, preparar refeições para os filhos e tocar tambores. Nenhuma menção ao trabalho. E isso não é desprezo ao trabalho. A cultura islâmica, assim como a cristã, entende o trabalho como valor pessoal. No entanto, por aqueles lados a vida pessoal não é tão absorvida pelo trabalho como ocorre nos países capitalistas desenvolvidos e em desenvolvimento. Há mais espaço para o protagonismo do indivíduo, independente de sua ocupação. Desta maneira, a autoestima daquelas pessoas está mais firme dentro delas, dependendo menos de apoios externos.

Por estes lados do globo a abordagem é diferente. Submetidos à competição intensa e inspirados pelo utilitarismo econômico, queremos que cada segundo da nossa vida seja produtivo. E, por produtivo entende-se algo que possa ser transformado em produção com valor de mercado. Por isso incorporamos as nossas profissões à nossa personalidade.

Isso pode se tornar um sério problema pessoal e social em fases de retração da atividade econômica, como a que passamos agora. As pessoas, ao perderem o emprego, correm o risco de perder também a identidade social e individual. E isso, na esfera individual, causa grandes estragos na autoestima, e na esfera pública pode alimentar processos de exclusão social.

Para além da retomada da atividade econômica, talvez seja interessante refletir se o trabalho merece um lugar tão central na vida privada e na existência das pessoas.