domingo, 3 de abril de 2016

O certo e o errado em economia

A mídia corporativa, blogs, artigos de jornal, telejornais sempre apresentam opiniões sobre economia como se detivessem o monopólio da verdade. Cada um, de acordo com seus critérios, costuma apresentar o que é economicamente certo e o que é economicamente errado em termos de políticas públicas. E todos esses veículos, em maior ou menor grau, tentam atuar de maneira persuasiva, buscando convencer o grande público de que suas opiniões são tecnicamente embasadas e que as demais são frutos de ideologias e não de uma ciência.

A expressão “tecnicamente embasada” busca aproximar a economia das ciências exatas, como se existisse apenas um conjunto de técnicas adequadas e aceitas para a análise econômica. No entanto, a economia é uma ciência social e, por isso mesmo, as técnicas utilizadas para a análise e, consequentemente, formulação de políticas, depende da visão e dos interesses que estão envolvidos.


Adam Smith formulou a ideia de que a oferta e demanda de bens e serviços se encontram em um espaço abstrato chamado mercado, interagem entre si e chegam a um equilíbrio, onde demandantes estão dispostos a pagar um determinado preço e ofertantes estão dispostos a produzir bens e serviços em determinada quantidade de acordo com o preço definido pelo mercado. Especificamente sobre isso, há um certo consenso entre estudiosos das ciências sociais. Mas, praticamente, o consenso acaba ai.

A questão que surge a partir daí é: o que determina o comportamento da demanda e da oferta. Entenda-se que a economia tem como objeto a forma como a riqueza é produzida e distribuída. Na produção da riqueza há vários segmentos sociais envolvidos e todos eles buscam se apropriar de parte do que é produzido.

De modo bastante simplista, mas válido como uma primeira aproximação, observam-se duas correntes analíticas na economia: uma acredita que a oferta é o determinante principal na produção e distribuição da riqueza e a outra credita esse papel à demanda.

A corrente da oferta é representada pelo pensamento de Jean Baptiste Say. O pensamento dele parte da lógica de que ao decidir produzir bens e serviços, o capitalista realiza uma série de pagamentos que resultam em um fluxo de renda que gerará a demanda necessária para a compra da produção e realização do lucro. Essa teoria está no DNA da abordagem neoclássica e de todas as políticas liberalizantes que acreditam que a ação do Estado pode desestimular o capitalista a iniciar sua produção.

Do outro lado, está a corrente que utiliza a ótica da demanda, onde destacam-se os trabalhos de John Maynard Keynes. As correntes teóricas aqui originadas acreditam que, uma vez que o capitalista médio busca minimizar seus riscos frente à incertezas, eles observam o comportamento da demanda para decidir se produzirão ou não. Caso exista uma população disposta a gastar seus recursos com consumo, então o capitalista se sente mais seguro para iniciar a produção.

São duas óticas sob as quais a economia pode ser analisada.

Obviamente, o capitalista individual prefere a ótica que lhe permita maximizar lucros, o que ocorre, nesta visão, pela redução de custos. Para este ator do sistema econômico, impostos, taxas, legislação trabalhista, legislação sanitária, fiscalização do setor público são custos que deveriam ser suprimidos porque, em tese, o desestimulam a produzir. Essa visão, sob a ótica do produtor individual, parte do pressuposto smithiano de que a soma dos esforços individuais gerará bem estar geral.

A ótica da demanda entende que, em um mercado competitivo, com assimetria de informações e com poder de barganha desigual dos agentes, o comportamento individual pode ser ineficiente do ponto de vista da sociedade. Por isso, estes cientistas sociais acreditam que a coordenação do sistema econômico pelo Estado é fundamental, e para isso este deve utilizar os instrumentos de políticas econômicas disponíveis, como a política fiscal e monetária. Esta visão teórica baseou a maior parte das políticas econômicas do período pós-1929 e do pós-guerra.

Portanto, quando um economista, um jornalista ou qualquer pessoa expressa uma opinião sobre o sistema econômico, ela o faz a partir de uma determinada ótica, geralmente definida pela sua posição na estrutura social. Não há posicionamento meramente técnico. Muito menos imparcial.

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